Batidas na porta do quarto. A luz mirrada que entra pelas irreparáveis frestas da persiana denuncia que as horas da manhã são poucas, muito poucas. Um olho se abre devagar, com cuidado para não acordar o outro. Mais batidas.
- Gustavo?
Reservo algum tempo para me situar no universo antes de decidir se respondo ou não ao chamado da minha mãe, do lado avesso da porta. Se não estou enganado, é quinta-feira. O despertador ainda não se manifestou, o que confirma ser muito, muito cedo. Um dos cobertores que deveriam me guarnecer atirou-se da cama no meio na noite - às vezes, meu cobertores têm sonhos muito agitados, reflito, e percebo que voltam a bater à porta.
- Acho que ele não está. - reporta mamãe, denunciando que havia mais alguém com ela. Não ouço resposta. Algo errado. Alcanço um relógio em busca de parâmetros confiáveis. Quinta-feira, confere. Menos de sete da manhã, confere. Todo o resto não fecha. Não há qualquer motivo para que eu estivesse em qualquer outro lugar que não o meu colchão, tampouco para visitas inoportunas a essa hora. Muito menos para minha mãe mentir sobre minha improvável ausência a um interlocutor misterioso. Se fosse uma emergência, me acordariam com mais vigor; qualquer coisa menos urgente poderia esperar até as 10. Um incêndio esperaria até as 8, pelo menos. E, além do mais, que mais me procuraria?
Então, compreendo toda a situação.
São os federais.De alguma forma descobriram minhas mp3 ilegais e vieram me buscar. Droga! Tenho de pensar rápido. Eles não devem ter caído no blefe da velha, é provável que já estejam se preparando para arrombar a porta do quarto, me enfiar dentro de uma viatura e confiscar meu insuspeito computador. As evidências! Preciso destruir as evidências.
Não tenho dúvidas: em um instante arranco os cabos do gabinete e o arremesso do terceiro andar em direção à rua, destruindo qualquer vestígio que pudesse me incriminar e um pouco do capô de um Palio mal estacionado. "Jamais me pegarão com vida", penso, e, com um sorriso triunfante, destranco a porta para enfrentar o braço da lei.
Aí, em vez de me deparar com quarenta e doze agentes armados preparando a emboscada, vejo minha mãe e mais uns parentes de longe tomando café com cuca na o sofá da sala, assistindo o Alexandre Garcia no
Bom Dia Brasil.
É tudo o que tenho a relatar, senhores. Não foi alucinação, não foi surto de ira, e não, não tô usando drogas. Eu entendi errado, só isso. Então, tio Alvo, da próxima vez que estiveres viajando de madrugada e resolveres "passar de surpresa para dar um abraço nos sobrinhos", me avisa antes. Evitaremos novos contratempos. E desculpa pelo carro.